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Final Fantasy VII Rebirth e o fim da sutileza — Crítica

Uma exegese necessária

O Sutil, vem do latim Subtilis. Algo tênue, fino e delgado. Quando atrelamos o adjetivo “sutil” a um indivíduo, tratamos de sua capacidade de se infiltrar em determinada circunstância sem causar alarde. Quando atrelamos Sutileza a algo ou alguém, é para determinar a ideia de que aquilo é capaz de trazer ideias, emoções e provocações, sem sequer te avisar.


Final Fantasy VII Rebirth não é nada sutil, ele está constantemente gritando no seu ouvido “VOCÊ SE LEMBRA DAQUILO?”, ainda que em cada traço do que faz um Final Fantasy ser Final Fantasy, ele refina seu propósito através de pequenos gestos controversamente… sutis.


Lançado em 29 de Fevereiro de 2024 exclusivamente para PlayStation 5, Final Fantasy VII Rebirth continua diretamente os ritos que seu antecessor pavimentou nas ruas de Midgar em Final Fantasy VII Remake. 4 anos e uma geração de consoles depois, Rebirth segue uma “evolução” conceitual e estrutural, que provém da natureza idiossincrática do que é um Final Fantasy…. — eu chego nisso em breve.


Por mais reiterada que tenha sido essa informação, Final Fantasy VII Rebirth tem um mundo aberto daqueles repletos de ícones no mapa e com claras inspirações em jogos da Sony como Ghost of Tsushima, e essa é só uma das "bizarrices" de design de jogos triple A que a equipe de Tetsuya Nomura, Kazushige Nojima e Naoki Hamaguchi trazem para a clássica franquia de jogos Final Fantasy VII.


Se você, por algum motivo, se desapontou com a falta de marcadores no mapa em jogos como Final Fantasy XVI e se encontrou frustrado com as 26 missões secundárias em Final Fantasy VII Remake, pode ficar tranquilo, pois as 40 horas de história principal de Rebirth facilmente multiplicam para 80, 90, 100, e, no caso de uma potencial platina, ao infinito e além!


Sim, eu fiz todos os ícones no mapa. Cada uma das dezenas e dezenas de micro tarefas que cada região do jogo te propõe a fazer, e eu posso afirmar com toda a certeza do mundo que você realmente não precisa fazer isso! Sério, não provoca nenhuma grande mudança na experiência… vai lá e joga com calma.


O maximalismo de Final Fantasy VII Rebirth vai além de suas estruturas de mundo aberto, muito além da vasta complexidade do estilo de luta que cada personagem do jogo carrega (a Yuffie é muito complexa) e mesmo os complexos de identidade e traumas de cada personagem da party (a Yuffie é muito complexa²) são alguns dos numerais que compõem o grande cálculo quântico que é a existência deste jogo.


Aqui existe algo que vai além do que o nosso subconsciente é capaz de incorporar como verdade, existe um impulso físico e material na refeição que essa trilogia de remakes busca servir.


Nota do editor: Atenção! A partir desse momento o texto conterá pequenos spoilers de Final Fantasy VII Rebirth.


"Será que Sephiroth... fez isso?"

Logo no segundo capítulo principal de Rebirth, chegamos ao memorável momento análogo ao jogo original em que Cloud se questiona no que eu presumo ser um completo estado de choque, já que as emoções não eram tão perceptíveis no jogo de PlayStation 1.


Basicamente, na obra de 1997, encontramos a terrivelmente extraordinária Midgar Zolom empalada pelas mãos do antagonista Sephiroth… não presenciamos o ato em si, mas podemos apenas imaginar como diabos um inimigo que toda a party até esse determinado momento do jogo era completamente ineficaz em derrotar, sucumbiu pelas mãos de apenas um homem, o mais habilidoso Soldado que pisou em Gaia.


Em Final Fantasy VII Rebirth nós também encontramos a serpente, agora nomeada Midgardsormr. Ela está vivinha da silva, combatemos ela em uma daquelas clássicas lutas de três atos herdadas das estruturas de Final Fantasy VII Remake, até que enfim Sephiroth aparece no combate e tem um "momento diva do gaslighting" no bichinho de estimação dele (Cloud Strife) e empala a cobra.


São esses tipos de momentos que ocorrem o tempo inteirinho na longa jornada de renascença destas reimaginações de VII. Eu poderia encerrar por aqui e dizer “okay, tá tudo diferente e mais enrolado né, que curioso”, mas existe um motivo muito conclusivo, para entender por que o que acontece, acontece como acontece.


Final Fantasy VII Rebirth espera que você já saiba o que diabos aconteceu e está louco para constantemente subverter da maneira menos sutil possível suas expectativas. Assim como desde o começo desta saga de remakes, um anjo de uma asa só está constantemente sussurrando nos ouvidos de Cloud quase como uma tortura, os eventos que ninguém deveria sequer saber que estão fadados a ocorrer…


Quem está escrevendo a história destes jogos não busca respeitar esses acontecimentos como lembranças segregadas e protegidas a sete chaves daqueles que conheceram o Final Fantasy VII de 27 anos atrás.


Nesta saga existe uma busca conturbada e incessante de emancipação baseada nas auto derivações do conceito de refazer um jogo e transformá-lo em uma franquia de reimaginações regrada a tais violações.


O discurso de "os remakes serem o Final Fantasy VII completo e definitivo" caem por terra a partir da forma que Rebirth se expressa. Ele parece o tempo todo se reafirmar como um jogo vivo e com consciência, sempre disposto a se moldar a necessidade do zeitgeist (o espírito do tempo) mas principalmente, sob o entendimento daqueles que estão o desenvolvendo.


O exemplo mais prático desta ideia, é o desaparecimento de Reno. O principal e mais memorável Turk da Shinra. Toda vez que algum personagem se questiona do sumiço do personagem (e isso acontece com razoável frequência), seu amigo e colega de trabalho Rude sempre responde esses questionamentos com um pesar quase que sutil. Afinal, Reno está tirando boas férias e enfim descansando…


"Got it memorized?"

No dia 12 de abril de 2020, aos 55 anos, Keiji Fujiwara morreu lutando contra o câncer. Keiji Fujiwara foi o ator de voz de Axel, na franquia Kingdom Hearts, e de Reno, desde o filme de Final Fantasy VII: Advent Children.


Por conta deste infortúnio, mesmo não sendo coerente com os eventos “canônicos” de Final Fantasy VII, a equipe de Rebirth preferiu encontrar sua própria forma de prestigiar o ator de um personagem tão querido, algo que não fosse tão simples quanto substituí-lo por outro ator ou mesmo algo tão insensível quanto inventar uma voz por inteligência artificial e assim violar por completo aquele que morreu e sua própria mortalidade.


Assim, finalmente, fica claro onde se habita uma das nuances da sutileza por trás de Final Fantasy VII Rebirth.


Não é um ciclo de egocentrismo da própria obra, mas de respeitar cada fração de segundo de uma antiga jornada, não só os grandes momentos, mas aqueles mais bizarros, confusos, e que acima de tudo, representavam o sentido de viver naquele mundo.

Tudo aqui tem uma noção de vida, que a obra carrega consigo mesma, e onde habita essa vida, obviamente a morte anda junto. "Mas não é uma morte do autor, se esse processo vem da mão do próprio autor…?" Eu posso até propor esse questionamento, mas não tenho intenção alguma de responder.


Entretanto, também é necessário seguir adiante. Acompanhar toda a ideia de uma franquia Final Fantasy VII é algo bizarro por natureza e pode parecer como apenas consequência da capitalização de um produto que em algum momento de sua existência, buscou provocar revolta e descontentamento com a situação atual de nosso planeta Terra.


Tomando as rédeas do maximalismo em "final fantasy vii rebirth"

É latente que essa nova saga busca confiar nos processos do videogame de uma forma completamente cega. A atitude de Cloud Strife de carregar, guardar, segurar e atacar com sua Buster Sword (ou qualquer uma das belíssimas espadas que você coleta e coleciona) tem um peso próprio e o jogo busca sempre nos provocar a entender a necessidade de dar tempo ao tempo para essas pequenas ações que giram as engrenagens da grande ópera.


Isso vale para qualquer evento do jogo, independente do quão grande ou pequeno seja, uma cutscene com um budget extraordinário, ou apenas uma conversa de poucas linhas de diálogo, no caminho de concluir uma quest secundária.


É a ação que todo personagem provoca e é provocado. Assim como Red XIII deseja ser chamado por seu nome de nascença, Vincent Valentine acaba se mostrando um cara menos descolado e mais antiquado e mesmo a Aerith em todas suas participações, reforça a cada dia a sensação de… viver?


A experiência definitiva de final fantasy vii (Conclusão)

Sabendo que Rebirth abre mão das sutilezas e tendo falado da sua abordagem maximalista, cabe um tom mais poético para ilustrar que aqui, o nada vira tudo, e o tudo vira nada. Como consequência, a trilogia já coleciona mais de 130 horas de conteúdo no mínimo (Final Fantasy VII Remake, Intergrade, Rebirth) e ainda busca levar o 200 pra casa quando enfim o último capítulo chegar. Mas eu te garanto com todas as minhas forças: se você está em busca do Final Fantasy VII definitivo, ele já foi lançado em 31 de janeiro de 1997.


Todavia, caso você tenha interesse em redescobrir aquele mundo, sem medo da frustração e descontentamento, mas sim com o coração aberto a se apaixonar novamente por esse antigo amor, que já trocou de número e endereço, eu te garanto que você pode encontrar algo que vai acalentar o seu coração para além de uma súbita paixonite juvenil…

Enquanto isso, Final Fantasy VII Rebirth segue tentando com todas as suas forças se desvencilhar do tão esperado fim de suas fantasias, mas será que isso é realmente possível?


Assim como alguém que tenta de todas as formas possíveis renegar aqueles traumas e dores que transformaram essa pessoa em quem ela é. Sempre correndo em círculos e círculos na direção oposta da resposta, afinal, não é a NOSSA resposta. Cabe até mesmo a ideia de desafiar um destino, mas será que sequer existe culpa nisso?


Nascer. Viver. Morrer. Retornar.

Não pode ser tão simples assim…

Eu realmente espero o dia que vamos nos encontrar novamente.




Agradecemos imensamente à Nuuvem pelo envio da chave de Final Fantasy VII Rebirth para produção de conteúdo.


Texto editado e revisado por Gabriel Morais de Oliveira (@GabrielHyliano).





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