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Lil Gator é sobre como nos tornamos adultos extremamente chatos — Crítica

Em uma discussão com amigos recentemente, sobre burnout e neurodivergências como o TDAH, foram levantadas algumas questões sobre como a mecanicidade do mundo, a exigência da fragmentação e especialização da vida como um todo acaba nos rotulando e nos forçando a nos enquadrar cada vez mais naquilo que é considerado como ideal, socialmente falando.

 

Se não cumprimos uma tarefa X em tempo Y, se não ganhamos o salário Z, todas essas questões vão se acumulando e nos tornando escravos de um sistema que nos desgasta à força, tentando nos transformar em uma engrenagem "funcional".

 

No começo, eu fiquei um pouco revoltado pela aparente tentativa dos meus amigos de negligenciar as dificuldades causadas pela neurodivergência, principalmente por eu ter o diagnóstico de TDAH, mas não era esse o caso. Eles tinham razão quando disseram que ser um neurodivergente não me impediu de ser uma criança feliz.

 

Na verdade, a pergunta que eu não queria responder machucava, e muito, sendo ela:

 

Desde quando nos tornamos adultos tão insuportáveis?

 

UMA AVENTURA ÉPICA

 

Lil Gator é um jogo extremamente fofo e casual, em que controlamos um jacarézinho disposto a captar a atenção de sua irmã mais velha, que tanto se esforçava para diverti-lo com brincadeiras super criativas quando ele ainda era somente um bebê.

 

Acontece que alguns anos se passaram e a "irmãzona" agora está na faculdade, com muitos trabalhos e projetos que drenam a sua atenção. O pequeno jacaré, então, bola um plano com seus amigos de construir uma aventura épica para chamar a atenção de sua irmã mais velha, e assim começa a aventura de Lil Gator.



Com um trope simples da "Lenda do Herói", extremamente parafraseada do herói Link, de The Legend of Zelda, Lil Gator não mede esforços na criatividade para contar uma história sobre valorizar a nossa criança interior. O pequeno jacaré é enérgico, capaz de enxergar papelões e punhados de confete como inimigos, espadas, escudos e projéteis.

 

Mas a obra também é assertiva em nos mostrar que, com a vida adulta, os sonhos de infância vão se perdendo, e que isso não significa necessariamente um amadurecimento. Eu achei que a lição de moral de Lil Gator em algum momento seria "Cresça! Você não é mais uma criança, pare de brincar! Amadureça!", mas eu não poderia estar mais errado.


Em Lil Gator, o próprio amadurecimento é controverso, já que um dos seus "sintomas" reflete em deixarmos a contemplação e o lúdico de lado. Não existe mais pausa, não existe calma, é sempre a próxima tarefa, a próxima graduação, o próximo objetivo. A vida que sentíamos, que sonhávamos é descartada. Estar presente e perceber o que acontece à nossa volta vira sinônimo de perda de tempo. A irmãzona é o exemplo daquilo que não queremos nos tornar: um ser humano chato, que não tem mais tempo para brincar com o seu irmão mais novo.


 E esse, pra mim, é um dos motivos pelo qual nós abandonamos a cosmovisão lúdica da vida, em que até parar para brincar com seus filhos deve ser terceirizado a fim de que você não perca tempo em alcançar os seus "objetivos". Até hoje eu luto com a minha voz interior de que até mesmo o meu sonho de profissão com o videogame é uma fase que eu não consegui superar, que eu estou tentando legitimar uma "brincadeira de criança" em trabalho, que eu não amadureci.


Mas Lil Gator é um respiro que acalma essa inquietude e sussurra "Calma, cara, não seja um adulto insuportável. A vida já vai se encarregar no futuro de ser chata o suficiente.".


Inclusive, é difícil aceitar que, não fosse a pressão irreal dos ideais capitalistas, uma parcela absurda dessa leva (da qual me incluo) de novos diagnosticados como neurodivergentes talvez não precisasse se dopar de remédios para performar como um alguém que renuncia à estabilidade racional para passar horas e mais horas trabalhando, como um "adulto normal".


O médico húngaro Gabor Maté, especialista em desenvolvimento infantil, em um podcast recente, disse que se ele tivesse a chance de voltar atrás na vida ele a teria vivido de forma diferente, e a obra que ele citou como catalisadora desse sentimento de arrependimento por ter abandonado a contemplatividade da vida foi, nada mais, nada menos, do que o livro que deu origem à história do Ursinho Pooh.

 

Segundo ele, o último trecho do livro citado foi responsável por lhe arrancar lágrimas durante anos.




"Onde quer que vão e aconteça o que acontecer pelo caminho, naquele lugar encantado no topo da floresta, um menino e seu Urso estarão sempre brincando."

Lil Gator é simplesmente isso, uma obra que nos faz refletir sobre o momento em que paramos de brincar, e como isso nos torna seres humanos chatos, insípidos, sem cor, e o pior de tudo: doentes.

 

Pra quem estiver disposto a enfrentar uma mecânica inofensiva, a obra da Playtonic tem um potencial imenso, tal qual assistir um dos bons filmes da Disney que dialogam tão bem com qualquer faixa etária, como Divertidamente, por exemplo.




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